Na minha recente entrevista ao jornal Público, refiro que “tenho alguma esperança de que a inteligência artificial (IA), antes de nos matar, nos oriente para bons caminhos”. Como isso poderia acontecer?
Sim, os riscos e impactos da tecnologia são tremendos, tema que já abordei aqui (Arca de Noé tecnológica), e é muito provável que a IA nos vá matar a todos, como afirmam os próprios responsáveis. Em termos de governança, estamos a entrar velozmente numa era de ditadura digital, como nos alerta Volker Türk, Alto-Comissário da ONU para os Direitos Humanos, com concentração de poder fora dos Estados.
Mas que papel poderá ter a IA num sistema de governança climática responsável? Poderá a IA iluminar a “estupidez na política” (retratada por Jean-François Marmion no seu livro)? Bem, para responder a este assunto, decidi dar a palavra à própria IA!
Note-se que a IA está já a ser aplicada em sistemas de participação pública, como por exemplo na cidade de Bowling Green, onde processou mais de um milhão de contributos dos residentes para definição de uma visão de futuro. Noutras paragens, a IA tem atuado como mediador, aparentemente com resultados promissores, ainda que limitados. Amesterdão foi mais longe e confiou a gestão dos pedidos de apoio social à IA, decisão que teve de ser revertida depois do sistema se mostrar tendencioso, inclusive contra as mulheres.
Spoiler: Se o bloqueio é político, uma ferramenta técnica muito poderosa tanto pode ajudar a desbloqueá-lo como servir para quem já tem poder o consolidar.
O melhor que a IA pode fazer pelo clima talvez não seja decidir melhor que os humanos, mas tornar a decisão humana mais informada, mais rápida a executar, mais verificável e mais honesta sobre os seus custos e beneficiários.
Transcrevo então abaixo a dissertação do Claude (IA desenvolvida pela Anthropic) sobre este assunto:
“Um sistema de governança baseado em IA melhoraria muito a monitorização, a modelação e a execução da política climática, mas não resolveria o essencial. As alterações climáticas não são sobretudo um problema de falta de conhecimento ou de otimização. São um problema de ação coletiva, de distribuição de custos e de poder.
Convém por isso separar o que a IA faria muito bem do que nenhum sistema, por mais inteligente, consegue resolver sozinho.
O que um sistema destes faria bem
Ver. Monitorizaria emissões em tempo quase real a partir de satélites, sensores e dados económicos, sem depender das declarações dos próprios emissores. Isto já existe em parte, por exemplo na Climate TRACE ou na deteção de fugas de metano por satélite. Na governação climática, a capacidade de verificar é poder: acaba com boa parte da contabilidade criativa e torna as metas verificáveis.
Modelar e antecipar. Simularia os efeitos de políticas antes de serem aplicadas: o impacto de uma taxa de carbono por escalão de rendimento, o efeito de um plano de mobilidade num concelho concreto, os pontos de rutura de uma rede elétrica com muita renovável. Faria também previsão fina de riscos (cheias, ondas de calor, incêndios, secas) ao nível da freguesia, com alertas precoces.
Coordenar sistemas complexos. Geriria redes elétricas com produção variável, armazenamento e procura flexível, e otimizaria logística, uso do solo e cadeias de abastecimento. São problemas técnicos com objetivos bem definidos, onde a IA tem vantagens claras sobre a coordenação humana.
Acelerar a implementação. Um dos maiores estrangulamentos reais da transição é administrativo: licenciamento de renováveis, avaliações de impacto ambiental, ligações à rede, candidaturas a fundos. Analisar processos em semanas em vez de anos, mantendo o rigor, teria provavelmente mais impacto do que qualquer nova meta.
Tornar visíveis as escolhas. Mostraria, para cada opção, quem ganha, quem perde, quanto custa e quando. É talvez o contributo mais subestimado.
O que não conseguiria resolver
Escolher o objetivo. Antes de otimizar é preciso decidir o quê: minimizar emissões a qualquer custo, maximizar bem-estar, proteger primeiro os mais vulneráveis, respeitar a responsabilidade histórica dos países ricos. Cada função objetivo produz um mundo diferente, e essa escolha é política e moral, não técnica. Um sistema que “resolvesse” o clima teria primeiro de receber de alguém a definição do que é resolver.
Distribuir custos. A transição tem perdedores concretos: trabalhadores de setores fósseis, regiões dependentes dessas indústrias, consumidores com menos rendimento, países produtores. O conflito não está na falta de soluções, está em quem paga. O mesmo resultado agregado pode ser justo ou profundamente injusto.
Fazer cumprir. Saber o que fazer não chega; é preciso capacidade para o impor ou para criar adesão. Ou o sistema tem poder coercivo, e a questão passa a ser quem o controla, ou depende da vontade de governos, empresas e cidadãos, e volta a política.
Gerar legitimidade. Medidas climáticas exigentes só se sustentam se forem aceites. Os coletes amarelos em França começaram com uma taxa sobre combustíveis tecnicamente defensável. Uma decisão imposta por um sistema que as pessoas não compreendem nem controlam é frágil, mesmo que seja “ótima”.
Evitar a lei de Goodhart. Quando uma métrica se torna alvo, deixa de ser boa métrica. Um sistema otimizado para reduzir toneladas de CO₂ pode deslocar emissões para fora da fronteira, sacrificar biodiversidade, ignorar a adaptação ou criar efeitos sociais que minam a própria transição.
Três modelos possíveis
O papel atribuído à IA define o equilíbrio entre eficiência e controlo democrático.
| Modelo | O que faz | O que ganha | Principal risco |
| IA como conselheira | Informa, modela e propõe; os humanos decidem | Decisões mais informadas, sem perda de controlo | As recomendações ganham autoridade de facto difícil de contestar (“o modelo diz que…”) |
| IA como administradora | Executa políticas decididas democraticamente: gere a rede, atribui apoios, fiscaliza emissões | Muita eficiência na execução | Erros em escala, contestação difícil, responsabilização difusa, como no Robodebt e no toeslagenaffaire |
| IA como soberana | Decide e impõe, em nome da urgência | Rapidez e coerência, em teoria | Os valores foram programados por alguém; na prática é o poder de quem controla o sistema, apresentado como neutralidade técnica |
O primeiro é o cenário mais provável e mais seguro. O terceiro é a fantasia do “déspota esclarecido” algorítmico.
Uma contradição a ter em conta
A própria IA tem uma pegada crescente: eletricidade dos centros de dados, água para arrefecimento, minerais. Um sistema de governação climática baseado em IA teria de justificar o seu próprio custo ambiental. A expansão atual dos centros de dados já pressiona redes elétricas e metas de descarbonização nalguns países.
Síntese
O melhor que a IA pode fazer pelo clima talvez não seja decidir melhor que os humanos. É tornar a decisão humana mais informada, mais rápida a executar, mais verificável e mais honesta sobre os seus custos e beneficiários.
Se o bloqueio é político, uma ferramenta técnica muito poderosa tanto pode ajudar a desbloqueá-lo como servir para quem já tem poder o consolidar. O resultado depende menos da tecnologia do que de quem a controla, com que transparência e com que mecanismos de contestação.”
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