Centro do Clima, uma experiência que correu bem demais

Trabalhei os últimos 30 anos com políticos com o objetivo de apoiar o desenvolvimento de iniciativas locais de sustentabilidade. Em 2022 tive a oportunidade de desenhar de raiz uma estrutura de governança para alavancar a ação climática, por iniciativa do Presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim. Um “convite de sonho” que terminou em pesadelo no Natal de 2024. Haverá luz ao fundo do túnel?

O Centro do Clima da Póvoa de Varzim foi desenhado para dar resposta ao desafio das alterações climáticas, respondendo ao repto de António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas: tudo, em todo o lado, ao mesmo tempo. O objetivo era fazer a Póvoa subir da “liga dos últimos” para a “liga dos campeões” da ação climática, sem poupar esforços e dando um exemplo ao mundo de que é possível chegar longe e rápido.

O plano estratégico ficou pronto no início de 2023 e definiu o que íamos fazer: um centro colaborativo de experimentação em ação climática e resiliência comunitária, uma infraestrutura para suportar e catalisar os esforços de desenvolvimento regenerativo da Póvoa e da sua bioregião. Por meio de algo concreto e permanente, o objetivo era evitar a todo o custo o maior erro das políticas ambientais (e não só): depender de projetos fugazes, sem continuidade. Também não se pretendia mais um centro de educação ambiental ou um mero observatório: o objetivo era investir no saber-fazer, com projetos estratégicos tangíveis, de carácter demonstrativo e replicáveis, tais como comunidades de energia renovável ou infraestruturas verdes, azuis e castanhas.

Tão importante quanto o que se faz, é como se faz. O plano definiu uma estratégia baseada nos recursos endógenos, de forma a promover a sua regeneração e garantir a máxima autonomia energética e alimentar. Afinal, a Póvoa de Varzim é um território de fronteira e diversidade onde nada falta e tudo se conjuga… o mar e a terra, o urbano e o rural, o tradicional e o moderno. Decidiu-se apostar tudo na colaboração, criando sinergias entre os diferentes agentes que atuam no território.

Todos foram convocados. Antes de mais, foi contratada uma equipa profissional e com um leque de competências alargado, da comunicação à gestão florestal, da gestão de projetos à mobilização cidadã. Seguidamente foi criada uma base institucional de apoio, formada pelas Autarquias e a Universidade do Porto, através do centro de investigação Biopolis, para reforçar a atuação com base em conhecimento e garantir meios humanos e materiais adicionais. Juntaram-se como catalisadores o Movimento de Transição e a Casa Comum da Humanidade, aumentando a legitimidade e a projeção internacional.

Equipa técnica inicial do Centro do Clima (Manuel Miranda, Rosa Moreira, Pedro Macedo, Sara Rocha, Filipa Figueiredo)

Como base de toda a atuação, o movimento “Póvoa em Transição”, uma ampla rede de cidadãos e organizações devidamente apoiados e capacitados para intervir, com facilitação profissional pela equipa do Centro do Clima. Após um ano de trabalho já estavam mobilizadas dezenas de cidadãos e mais de 50 entidades, a desenvolver proactivamente projetos como a “Vidas em transição” e “Organizações em transição”, com apoios da Fundação Cultural Europeia e Fundação Calouste Gulbenkian, respetivamente.

A história de Ana Milhazes, embaixadora do Pacto Europeu para o Clima, foi uma das escolhidas na campanha Vidas em Transição (fonte: Ana, Go Slowly)

O investimento inicial na literacia climática incluiu a dinamização de workshops, visitas de campo, residências artísticas, exposições, concursos, seminários e conversas, da biodiversidade à manutenção de bicicletas. Foi criado na biblioteca local um acervo de livros dedicado ao tema e espalhados mupis pela cidade com histórias inspiradoras de Poveiros alinhados com os princípios da sustentabilidade e geradores de mudanças no seu dia-a-dia.

Os jovens foram mobilizados através de programas de capacitação como os “Guardiões da Natureza” (através das escolas) e Jovens pelo Clima (nas férias). Foram ainda convocados para uma grande manifestação (“Juntos pelo Clima”) que reuniu milhares de crianças e as suas famílias. Este encontro foi um evento ‘satélite’ do Pacto Europeu para o Clima, em articulação com a campanha “Linha Vermelha” e movimentos climáticos, com envolvimento ativo de muitas organizações Poveiras e aposta na intergeracionalidade.

Encontro “Juntos pelo Clima” (fonte: JN)

A ânsia de fazer era tanta que, ainda antes da inauguração do Centro do Clima (julho de 2023), já tinham sido realizadas reuniões para criar uma comunidade de energia renovável e promovida a plantação do primeiro “Bosque pelo Clima” na Póvoa de Varzim, num evento amplamente participado. A rede de bosques autóctones cresceu rapidamente, mobilizando terrenos privados e públicos, com apoios da Fundação Life Terra, Floresta Comum, Fundo Ambiental e vários mecenas. Projeto que recebeu um prémio a nível nacional (“Floresta é Sustentabilidade“) na categoria Economia e Sociedade.

Os Bosques pelo Clima são plantados por voluntários (fonte: CRE.Porto). Com este projeto pretende-se a criação de uma rede de espaços florestais resilientes, atuando como sumidouros efetivos de carbono e redutores do risco crescente de incêndios florestais. Em simultâneo, pretende-se reforçar a capacidade de regulação do ciclo da água, a qualidade dos solos e do ar, a biodiversidade, a valorização da paisagem e a criação de espaços de lazer.

A apresentação pública do Centro do Clima contou com a exibição do documentário espanhol “Alter Nativas, construindo futuros possíveis”, que teve na Póvoa de Varzim a sua estreia nacional. O Centro do Clima organizou ainda uma digressão por Portugal com este documentário, tendo visitado no trajeto vários projetos inspiradores. Desta tournée viria a nascer o documentário colaborativo “Caminhos da Transição”, disponível gratuitamente na internet.

O final de 2024 tinha tudo para ser épico, com a estreia do documentário e a inauguração da nova sede apetrechada de espaços de laboratório e eventos. Em novembro tinha sido realizada uma pioneira “Assembleia de Cidadãos para o Clima” e a formação de técnicos do Município, como pontapé de arranque para a preparação do Plano Municipal de Ação Climática. Foi ainda lançado um concurso de ideias imaginativas para a ação climática (“E se…”), alavancado pela vinda à Póvoa de Varzim de Rob Hopkins e Filipa Pimentel, ‘gurus’ da transição.

No dia 19 de dezembro chegou ainda uma notícia extraordinária: a candidatura ao Horizon Europe tinha sido aprovada, permitindo investir milhões de euros na Póvoa de Varzim na implementação de um sistema de co-gestão territorial no Rio Alto. Trata-se de uma área com enorme vulnerabilidade aos riscos climáticos, assolada por cheias e pela subida de nível do mar, onde a intensidade agrícola se cruza com infraestruturas de lazer e ecossistemas sensíveis.

Sendo assim, o dia 20 de dezembro, em vésperas de Natal, deveria ter sido de celebração. Mas, de forma inesperada, abrupta e ilegal, fui despedido de diretor executivo do Centro do Clima pelos responsáveis autárquicos. Apesar de ser reconhecido o amplo sucesso do empreendimento, fui acusado de ser demasiado independente. Independência que foi justamente o ‘segredo’ do Centro do Clima, já que me permitia ativar e articular de forma ágil os diferentes círculos autónomos de governança sociocrática: a equipa técnica, a rede de parcerias e o movimento de cidadãos.

O ‘atentado’ ao Centro do Clima teve réplicas, com a censura ao trabalho desenvolvido pelos Jovens pelo Clima, o cancelamento do envolvimento cidadão, mais demissões na equipa técnica, redução drástica no orçamento, interrupção do Plano Municipal de Ação Climática e aposta em iniciativas de greenwashing. Em sintonia com a demissão global dos governos em termos de responsabilidade climática, os autarcas da Póvoa de Varzim assustaram-se com o sucesso do Centro do Clima, com medo visível da mudança gerada e do poder assumido por cidadãos e organizações. Receio de ver contestadas iniciativas insustentáveis, como a construção de um hotel de luxo em plenas dunas costeiras, na zona do Rio Alto e para servir o campo de golfe. Outros interesses se alevantaram.

As recentes eleições autárquicas trouxeram mudanças nos executivos da Póvoa de Varzim e de Rates, freguesia onde se localiza a sede do Centro do Clima. Poderá haver agora alguma possibilidade de ressuscitar esta iniciativa pioneira de governança regenerativa, mas o mal está feito e a confiança foi quebrada. Trouxemos esperança em momentos de incerteza e medo do futuro, reacendemos a fé nos processos democráticos e inclusivos, mostramos que podemos ir longe e muito rápido, com agricultores e empresários. Mas o Centro do Clima também demonstrou que os nossos governantes são resistentes à mudança e vulneráveis à corrupção moral, alimentada por interesses económicos instalados e focados no curto-prazo.

Muitas sementes que foram lançadas continuam a germinar e nem tudo se perdeu. Mas, para que outro mundo seja possível, precisamos de resgatar a nossa democracia para que a verdadeira ação climática posso vingar e a mudança acontecer. Na Póvoa de Varzim e em todo o lado.


Teoria de mudança

Esta segunda parte do texto pretende detalhar a teoria de mudança utilizada na criação do Centro do Clima, e recorre a textos escritos numa crónica publicada no jornal Mais Semanário, media partner da organização. Uma ‘teoria de mudança’ é uma expressão usada para se referir aos princípios e instrumentos subjacentes a uma determinada política ou iniciativa que tenha como objetivo gerar uma mudança social.

O Centro do Clima atuou com a perspetiva de promover o desenvolvimento regenerativo ao nível da bioregião, contribuir para a mitigação das alterações climáticas e para a resiliência do território. Foram definidos vários eixos ‘verticais’ de atuação, na perspetiva do desenvolvimento regenerativo, nomeadamente:

  • Ar, assumindo como objetivo central a monitorização e redução de emissões de gases com efeito de estufa, a par da prestação de serviços do clima
  • Água, regenerando progressivamente a rede hidrográfica e os aquíferos, bem como a zona costeira, numa perspetiva de adaptação (garantia de disponibilidade e resiliência face a fenómenos extremos) e mitigação (criação de corredores ecológicos)
  • Terra, contribuindo para a adoção de práticas agroecológicas que promovam a fertilidade dos solos e a biodiversidade em geral
  • Fogo, reduzindo consumos energéticos (eliminando o supérfluo e aumentando a eficiência energética) e explorando os abundantes recursos renováveis, maioritariamente inexplorados, seja o sol, vento ou a biomassa.

Na perspetiva de uma sociedade mais capaz de evoluir, tivemos como eixos ‘horizontais’ de atuação:

  • Governança, empoderando os agentes no âmbito de processos inovadores de planeamento e gestão do território e da paisagem, processos que sejam mais inclusivos e geradores de sinergias, permitindo co-criar intervenções (trans)locais evolutivas, geradoras de mudanças no sistema socioinstitucional
  • Formação, no sentido de dar corpo/forma ao processo de transição, mobilizando indivíduos, famílias e organizações no reforço de competências catalisadoras de uma consciência planetária e comunitária, traduzindo-se em modos de vida mais sustentáveis (foco na alimentação, mobilidade…); pretende-se ganhar a ‘massa crítica’ necessária para um ‘salto quântico’ do ponto de vista cultural
  • Economia, reforçando as trocas locais e a partilha (incluindo o financiamento e consumo colaborativo), a circularidade, a oferta de produtos e serviços de reduzida pegada carbónica, a integração de mecanismos de remuneração dos serviços dos ecossistemas e a aposta no turismo/lazer de base ecológica.

Os projetos foram planeados de acordo com esta matriz de eixos, procurando contribuir o mais possível para todos eles em simultâneo.

Mas quais foram afinal os princípios em que nos baseamos? Qual a teoria que está por detrás desta abordagem? Quem a definiu?

A teoria de mudança assumida foi o resultado de um inquérito colaborativo surgido em 2019 por iniciativa do Movimento de Transição. A questão colocada a meia centena de ativistas, técnicos, especialistas e políticos reunidos em Bruxelas em março de 2020 foi “Como podemos apoiar melhor as pessoas na cocriação e manutenção de respostas ambiciosas e inclusivas à crise climática e ecológica à escala municipal?”.

Tive o privilégio de ajudar a organizar e apoiar a iniciativa no âmbito da minha investigação-ação no doutoramento em alterações climáticas e políticas de desenvolvimento sustentável. Naqueles cinco dias memoráveis de trabalho intensivo honramos o nosso propósito: “Mergulhar fundo & Sonhar alto”.

O resultado foi um modelo de intervenção colaborativa estruturada, ligando dimensões de transição interior e exterior, passando do nível individual para o coletivo, e da dominação para a imaginação. Esta ‘teoria de mudança’ que adotamos no Centro do Clima (ver imagem) acomoda as seguintes dimensões:

  • O apoio aos agentes de mudança, com foco no indivíduo, incluindo proporcionar experiências que possam gerar profundamente uma ‘identidade planetária’, contribuindo para uma reconexão com o todo da Natureza, juntamente com o providenciar de recursos materiais e formativos que facilitem o surgimento de novas práticas e comportamentos
  • O acolhimento do trauma gerado por um mundo em ‘estado de emergência’, enfrentando experiências percebidas de separação e dominação, a fim de incorporar profundamente a ética numa nova cultura de reconciliação
  • O exercitar da criatividade para materializar uma nova realidade, questionando a forma como os indivíduos e as comunidades se expressam e se organizam e explorando possibilidades disruptivas que possam vir a manifestar-se
  • A intensificação da colaboração reforçando esforços para apoiar uma nova cultura baseada no pensamento sistémico, facilitando a inteligência coletiva, promovendo uma sincronia de iniciativas com o surgimento de novos padrões de colaboração.
Bússola para uma mudança regenerativa e integral (fonte: autoria própria)

As dimensões incluídas na teoria de mudança alinham-se com os quatro quadrantes da Teoria Integral, representando intervenções nas fronteiras entre experiências, comportamentos, culturas e sistemas, com manifestações nos mundos interiores e exterior, ao nível individual e coletivo. Uma teoria centrada na comunidade.

Tudo, em todo o lado e ao mesmo tempo. Como nos pedia António Guterres. Na Póvoa de Varzim foi possível, até colidir com os atores incumbentes.

Texto originalmente publicado no livro Raízes da mudança: histórias de ação climática na Península Ibérica

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