Há uma epidemia de desesperança. Perdemos direitos civis, ecossistemas, o clima estável que nos permitiu prosperar nos últimos dez mil anos. Tudo para o lucro infinito de meia dúzia de megalómanos. Não tinha de ser assim. Os nossos governantes estão transformados em mordomos que servem as elites, e perderam toda e qualquer vergonha. Alimentam as guerras, criam tecnologias para nos controlar, dizem os disparates que lhes apetece. Estamos fartos.
Fazer o luto não é fácil, porque a tragédia é imensa. Para qualquer lado que se olhe, há gente a rapar o tacho, de forma impune. Arrebatam-se as praias públicas para os resorts privados, cortam-se as últimas florestas que nos salvam, contaminam-se as águas. Planos para estender a toalha na Arrábida, fazer piqueniques em Ovar ou mergulhar na albufeira do Lindoso? É melhor esquecer.
São tudo consequências da “ditadura de uma economia que mata”, conforme lhe chamou o Papa Leão XIV. Na sua exortação apostólica “Dilexi Te“ denuncia as ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira em detrimento do bem comum. Uma das raras vozes internacionais com lucidez e coragem.

Quem vive no interior, tinha de lidar com os chamados “custos de contexto” do mundo rural, agravados pela vulnerabilidade aos efeitos das alterações climáticas, com os incêndios à cabeça. Agora perdem a terra para megaprojetos de energias renováveis e falsa transição, que os deixam ainda mais depauperados. Em Boticas a Savannah Resources recebe milhões do Estado e autorização para entrar em baldios e propriedades privadas, mesmo contra a vontade de parte da população local e das autarquias. Uma verdadeira “licença para matar”, só que desta vez não é para o James Bond, é para os “maus da fita”. Somos obrigados a lutar.
A Justiça Climática é justamente o tema do Encontro que irá acontecer este sábado, 20 de junho, em Guimarães. Cerca de 30 organizações juntam-se para discutir como reforçar a voz dos grupos mais afetados pelo colapso climático. Serão apresentados os resultados preliminares do EJMapping, que mapeia conflitos ambientais por todo o País. Iremos ouvir como o Climáximo tem estado a trabalhar junto de comunidades de alguns dos territórios mais fustigados pelos incêndios florestais. Iremos escutar jovens e ativistas mexicanos. Descobrir como Covas do Barroso resiste à prospeção do lítio.

No encontro será ainda debatido o que está a falhar nos nossos sistemas de decisão. E como podemos usar referendos locais, laboratórios de ação cívica, cooperativas integrais ou a antropologia visual para devolver a democracia ao povo. Irei apresentar o meu livro, sobre formas de construir um Mundo sem políticos (carreiristas e usurpadores). Como alguém disse, talvez “o último livro otimista escrito por um ambientalista”. Por muito que custe, há que buscar a cura para a desesperança.

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