Podemos confiar nas instituições criadas para nos protegerem a nós e ao planeta? Estamos dispostos a agir para as melhorar?

Estas duas perguntas dividem os Portugueses em quatro ‘segmentos’, de dimensões semelhantes (de acordo com um estudo recente da Gulbenkian). Há os ‘entusiastas’, que confiam nas instituições e estão dispostos a colaborar. Há os ‘esforçados’, que deixaram de confiar mas continuam a procurar a mudança (onde eu me incluo). Os ‘recetivos’ ainda confiam nas instituições mas estão à espera para ver para onde isto vai e não se querem comprometer. E depois há os ‘desinteressados e ocupados’, que não confiam e não querem saber, ou não têm tempo e energia.

E os jovens?

Os jovens, face aos adultos, confiam menos no coletivo para resolver os problemas ambientais e estão menos disponíveis para agir (segmentos assinalados a verde face a tracejado). Fonte: Clima de mudança: perceções sobre os desafios ambientais em Portugal

Bem, os jovens de hoje em dia estão, em média e face à população em geral, mais ‘desinteressados’ e menos ‘entusiastas’. Em particular, os jovens estão mais ‘ocupados’… talvez com todas as exigências do quotidiano, seja chegar ao ensino superior, ser o melhor no desporto, arranjar casa ou simplesmente cumprir os exigentes requisitos de moda e atualização a que estão fortemente sujeitos através das redes sociais. Para muitos deles, o futuro é negro.

Na Póvoa de Varzim alguns jovens ‘contra-corrente’ aceitaram o desafio para usarem algum do seu tempo em prol do Clima. Afinal, faz todo o sentido. Eles serão as principais vítimas das alterações climáticas e estamos nos derradeiros anos em que se pode fazer alguma coisa de útil para as resolver (antes de entrarmos numa espiral que nos vai levar para um mundo terrivelmente instável).

No Natal de 2024 os ‘Jovens pelo Clima‘ responderam ao repto lançado pelo Centro do Clima para criarem um pequeno filme que promovesse a sensibilização contra o desperdício. Com o apoio de facilitadores, criaram o guião, representaram, fizeram as filmagens e a montagem final. O resultado foi uma mensagem para o mundo: “Queremos ver as estrelas!“. Em plena época natalícia, proclamaram que, mais do que prendas e ruas cheias de luzes, queriam a companhia dos adultos para coisas tão simples quanto olhar o céu noturno e maravilharem-se com a infinitude do espaço.

Imagem da curta-metragem “Queremos ver as estrelas!” protagonizada por jovens poveiros

No filme um grupo de jovens organiza uma manifestação e forçam a Presidente da Câmara a desligar as luzes de Natal. Contudo, a realidade que estes jovens tiveram que enfrentar foi uma autarquia que duplicou a verba investida em luzes de Natal e censurou o filme, recusando a sua divulgação pública. Autarquia que agora está a ser investigada por suspeitas de corrupção com estes contratos de iluminação. Um banho gelado de realidade.

Inauguração das luzes de Natal na Póvoa de Varzim em 2024

Estarão os jovens, que ainda acreditam que podem mudar o mundo, condenados a atirar tinta verde aos políticos? Ou tinta vermelha às corporações que nos arrastam para a guerra? É pedir demasiado que alguém os ouça?

A investigadora Sabrina Fialho veio de propósito à Póvoa para assistir às filmagens e ver como o inovador Centro do Clima estava a mobilizar os jovens, através deste programa e outros, como o Juntos pelo Clima e o concurso de ideias “E se…” (que apoiou os esforços exemplares da escola de Aver-o-Mar). Confessa-se chocada com a censura dos jovens, embora admita que não é ato inédito. Noutras paragens, mesmo promessas políticas tão simples quanto ouvir os jovens um dia por ano, ficam esquecidas na gaveta. A Sabrina está a investigar como o ‘teatro legislativo’ pode ser utilizado para estimular os debates climáticos junto dos jovens.

O teatro legislativo promovido por Sabrina Fialho cria oportunidades de participação nas escolas

A motivação inicial para o trabalho da Sabrina veio de Sophie Howe, a primeira Comissária para as Futuras Gerações no País de Gales. Neste país todos os projetos públicos devem demonstrar que as decisões que tomam não irão comprometer as pessoas do futuro. Algo semelhante ao que o Centro do Clima estava a preparar, antes de ser alvo de ataques pelos próprios políticos que o criaram.

Como promover então a justiça intergeracional, num contexto que lhe é adverso? Como podemos devolver a esperança aos jovens?

Estas são as perguntas que irão nortear a apresentação do livro “Um Mundo sem políticos” na Póvoa de Varzim, no dia 7 de junho de 2026 (domingo) às 17h00 no café Schmits (Rua Serpa Pinto 93).

Conversa animada por Ana Trocado Marques, jornalista que vota sempre na esperança. Com a participação de Ana Rita Sencadas, a primeira Presidenta da Junta na história da Póvoa de Varzim e uma das mais novas a nível nacional (eleita com 23 anos).

“Precisamos de nutrir e de multiplicar os agentes de mudança, atualmente desamparados na sua maioria. (…) Precisamos particularmente de dar voz e empoderar os mais jovens, de discriminar positivamente as mulheres. Sem prescindir de nenhum contributo.”

Pedro Macedo, Um Mundo sem políticos


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