[texto que escrevi em março de 2001, após o desabamento da ponte de Entre-os-Rios, que vitimou 59 pessoas; faz hoje 25 anos; continua atual]
Geralmente todos os grandes acidentes surgem na sequência de um número elevado de situações que, tragicamente, fazem coincidir os seus efeitos nefastos num determinado momento. Também relativamente à “tragédia da ponte” terá acontecido o mesmo: o Inverno tempestuoso, a fiscalização insuficiente, as descargas excessivas das barragens, a extração e a acumulação das areias, a idade da ponte, a utilização que não estava prevista… todos estes fatores, juntos, fazendo sentir os seus efeitos crónicos e agudos, provocaram a queda. Provavelmente nenhum deles, isoladamente, seria suficiente, e por isso deveremos evitar simplificações dos acontecimentos que sejam injustas.
O que há a fazer, neste momento, para além de tentar atenuar o irremediável, é evitar que situações semelhantes surjam, procurando soluções de fundo. Podemos sempre instalar modernos aparelhos de controlo em todas as pontes e barragens, monitorizados à distância por numerosos técnicos qualificados e atentos, nacionais e estrangeiros, realizar visitas in loco todos os meses com inspeções rigorosas e exaustivas. Podemos fazer grandes campanhas de sensibilização junto dos areeiros, explicando-lhes os seus limites, que o lucro fácil é pecado, e podemos prender os infratores, criar institutos e novas leis, mais quadros técnicos, novos programas de intervenção e fiscalização, fazer mais uma rodagem nas posições dos políticos. Tudo deveria ser começado pela substituição de todas as pontes com mais de cinco anos, sem esquecer de controlar o clima e o azar.
Um interessante passatempo pode ser dividir as propostas acima em ingénuas, de fachada, insuficientes, de comprovada ineficácia, demasiado caras, complexas, impossíveis, ou apenas irónicas.
Se pudéssemos voltar atrás no tempo (o que nem sequer com 10 milhões de pessoas a desejar em simultâneo foi possível), o que é que teria, de facto, evitado que a ponte caísse? E, já agora, que fosse simples e barato?
Na verdade, teria bastado ouvir os avisos das populações, que foram muitos e repetidos, chegando ao cúmulo de ter pessoas a serem chamadas ao tribunal, no dia em que aparecia o primeiro corpo, acusadas de terem cortado o trânsito na ponte para chamar a atenção para a necessidade urgente de intervir.
Só as pessoas que vivem ao lado da ponte, que por lá passam todos os dias, que tantas horas passaram a olhar para ela, a contar histórias com a ponte como personagem, a ver trabalhar os areeiros e passar os camiões, a sentir os tremores e os ruídos, e até os cheiros, dia após dia, só essas pessoas podem sentir o que nenhuma equipa de manutenção pode averiguar, o que nenhum técnico pode prever, o que nenhum político pode alguma vez reparar, e mesmo sem saber explicar porquê, essas pessoas sabiam que a ponte estava em perigo. E disseram-no.
E ninguém ouviu, e ninguém fez nada. Porque em Portugal não são os cidadãos que mandam, é a tentação do lucro fácil, o bloqueio da burocracia, a sede de protagonismo dos políticos na defesa de interesses que nada têm a ver com os das populações. Se as pessoas pudessem participar nas decisões coletivas que afetam diretamente os seus interesses, se tivessem as suas cartas e abaixo-assinados à administração considerados, se as ouvissem, se fossem promovidos inquéritos de opinião para definir prioridades de investimento, promovidos referendos e assembleias… se os técnicos e os políticos tivessem parado para ouvir os berros de aviso dos cidadãos de Castelo de Paiva, e intervindo de acordo, não havia idade, areeiro ou mau tempo que deitasse a ponte abaixo, e nem sequer eram necessárias inspeções.
Este é o verdadeiro motivo, estrutural e fundamental, para a queda da ponte: em Portugal não são as pessoas que mandam.
Desenganem-se os que acham que é uma questão de interioridade, porque nas cidades também as pessoas não são ouvidas e, se se gasta mais, também se gasta muito pior, assim como não são melhores os dramas diários que se vivem.
Para inverter esta situação, é preciso admitir que a sabedoria coletiva dos cidadãos, integrada com o conhecimento técnico, vale mais que a decisão isolada do líder político, fechado no gabinete, por mais refletida e isenta que esta seja.
A possibilidade que temos hoje de, de vez em quando, escolher o menos mau dos candidatos eleitorais, e de votar em referendos esotéricos, sabe a pouco e não é motivador. Sem formação nem informação, sem qualquer possibilidade real de influenciar as decisões, não se pode esperar que as pessoas assumam a política e participem nela. Quando, em situação de desespero, ou alvo de manipulação, os cidadãos acabam por optar pela única via que tem dado resultados: queimar pneus e chamar a televisão (aliás em ordem inversa). Obviamente esta é uma forma deturpada e indesejável de participação.
A implementação de um novo modelo de decisão participativa seria fácil, porque hoje já existem as ferramentas necessárias, mesmo em Portugal, e é impossível fechar os olhos aos exemplos de sucesso. Além do mais, os técnicos, há muito bloqueados pela politiquice, receberiam certamente de braços abertos as prioridades definidas diretamente pelos cidadãos.
No final, talvez fôssemos obrigados a concluir que os políticos, tal como os conhecemos, afinal não fazem falta nenhuma, antes pelo contrário. Bem os poderíamos substituir por técnicos treinados para ouvir os interesses dos cidadãos, poupando-se assim muito dinheiro, muita paciência e evitando que muitas das pontes caíssem.
“Este é o verdadeiro motivo, estrutural e fundamental, para a queda da ponte: em Portugal não são as pessoas que mandam.”
Pedro Macedo

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