Há estórias assim, intemporais. Integrantes do nosso imaginário coletivo, os contos de fada de Hans Christian Andersen formam consciências, revelam virtudes e pecados, guiam-nos nos momentos mais difíceis. Um dos meus favoritos foi sempre esta estória de um Rei vaidoso, que estourava o dinheiro do Estado em roupas novas. Dois impostores aproveitaram-se desta fragilidade e venderam-lhe, a preço de ouro, trajes virtuais que apenas podiam ser vistos por pessoas inteligentes. Claro está, nem rei nem súbditos quiseram mostrar que seriam estúpidos e por isso perderam-se em elogios pela qualidade e beleza da inexistente indumentária real. Finalmente, ao desfilar orgulhoso pelas ruas, uma criança inocente proclama “o rei vai nu!”, denunciando o golpe.
A atualidade é pungente. Muitos dos nossos (des)governos perdem-se em desfiles de vaidade, distraem-nos com futilidades e não fazem aquilo para que lhes pagamos: cuidar das Pessoas e do Planeta. Pior do que isso: quem se atreve a denunciar que o Rei vai nu é castigado. Veja-se o caso dos cientistas e dos ativistas do clima, perseguidos judicialmente e acusados de dramatismo. Nem os jovens são poupados.
Quem são os alfaiates impostores do nosso tempo? Há muitos, mas têm-se destacado os multibilionários tech bros, Elon Musk e companhia. Veja-se o caso de Bill Gates, geralmente mais comedido, e que veio agora dizer que isto das alterações climáticas não é para levar tão a sério, afinal, há um preço a pagar pela modernidade. A pagar pelos pobres e mais fragilizados, enriquecendo os do costume.
Em outubro passado marcharam milhões nos Estados Unidos, contra o autoritarismo crescente e a derrocada da democracia. “No kings” foi o lema adotado, como resposta à imagem que o próprio Trump fez publicar nas redes sociais da Casa Branca e que aqui reproduzo. Será suficiente a denúncia? No conto original, Hans Christian Andersen revela-nos que o Rei, apesar de exposto, prosseguiu no desfile, ainda mais orgulhoso.
Este blog nasce para denunciar a incúria dos governantes, mas acima de tudo para apontar caminhos para o novo amanhã, em que a atual falsa democracia colapsou e nas ruas desfilam os povos livres. Esse outro mundo é realmente possível e já está à nossa porta. Deixemo-lo entrar.
“Ativistas, cientistas, jornalistas e todos os (eco)libertários terão de reunir esforços, encontrar entre si uma base comum, e vir para a rua honrar os heróis de Abril, denunciar a nudez do rei, bem como a inaceitabilidade dos seus devaneios.”
Pedro Macedo, Um Mundo sem Políticos

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